A última publicação deste blog é de 22 de maio de 2020. Ela falava do Pong e, no meio do caminho, fazia uma promessa: outro jogo, sobre o qual escrevi “lançarei no futuro aqui também”. O futuro chegou, quase seis anos e meio dele, e nem o jogo nem outra publicação apareceram.
Não foi por falta de ideias. A vida simplesmente aconteceu: me formei, mudei de emprego, comecei um mestrado e, um a um, os projetos pessoais foram para a gaveta. O blog foi junto.
O que mudou
Quando escrevi aquela publicação, o Brasil estava no começo da quarentena da pandemia, este site rodava no Heroku graças aos créditos de estudante e construí-lo tinha levado oito meses e meio de trabalho, tutoriais de Webflow e muita frustração com o design.
Seis dias depois, a OpenAI publicou o artigo que apresentou o GPT-3. Naquela época, modelos de linguagem ainda eram, em grande parte, assunto de pesquisa, e justamente um assunto que eu acabaria estudando: no mestrado, pesquiso como sistemas de Processamento de Linguagem Natural podem ser enganados por pequenas mudanças nos caracteres de um texto. Dois anos e meio depois veio o ChatGPT. Hoje, em 2026, eu programo com o Claude Code, o agente de programação da Anthropic, que lê os meus repositórios, roda os testes, abre pull requests e explica o que fez.
De tudo o que aconteceu nesses anos, foi isso o que mais transformou os meus projetos pessoais.
Projetos antigos de volta à vida
O primeiro foi este site. A versão que você está lendo é a segunda, refeita do zero: um blog escrito em Markdown, um portfólio de projetos, versões em inglês e português, cada uma no seu domínio, modos claro e escuro, editores que funcionam no celular e um processo de publicação com ambientes de staging e produção. Até as duas publicações antigas vieram junto, importadas do banco de dados da primeira versão.
O exemplo mais claro, porém, é o Instackup, uma biblioteca Python que criei no final de 2019 para parar de reescrever, em cada pipeline de dados, o mesmo código de conexão com BigQuery, S3, Redshift e outros serviços. A última versão era de fevereiro de 2021. Cinco anos depois, ela exigia o Python 3.6, fixava dependências que não podiam mais ser instaladas junto com nada moderno e usava funções que o pandas já tinha removido. Os testes cobriam um único módulo, então não havia como saber o que ainda funcionava.
Com o Claude, a revisão virou um único pull request: Python 3.11 a 3.15, credenciais vindas de gerenciadores de segredos, cerca de 30 bugs corrigidos (três deles de segurança), 420 testes rodando no Linux, no macOS e no Windows e uma versão nova no PyPI. A história completa está na página do projeto.
Entendendo o contexto
Código que escrevi há cinco anos é quase código de outra pessoa. Não lembro mais por que tomei cada decisão, qual gambiarra escondia qual bug ou como cada biblioteca funcionava na época. Normalmente é isso que mata a retomada de um projeto: antes de mudar qualquer coisa, é preciso reconstruir o contexto, e só isso pode levar mais finais de semana do que a motivação aguenta.
É aí que o Claude mais ajuda, e da forma menos óbvia. Em minutos, ele lê o repositório inteiro, a documentação, o histórico de commits e até o banco de dados antigo, e explica o que encontrou: o que cada parte faz, o que depende do quê, o que ficou desatualizado e por quê. É como voltar a um projeto com um colega que já leu tudo e não tem vergonha de perguntar “por que isso está aqui?”. A partir daí, a conversa é sobre o que fazer, e não sobre o que existe.
Ideias novas
O Claude também não se limita a fazer o que eu peço. Ele sugere alternativas, pergunta sobre os casos que eu não tinha considerado e aponta problemas que eu nem sabia que tinha: foi cobrindo cada método do Instackup com testes que apareceram os bugs que ninguém tinha notado, inclusive os de segurança. Às vezes eu concordo, às vezes não, mas sempre preciso parar para pensar, e o resultado sai melhor por isso.
Ele também é ótimo para pensar em voz alta. Descrever uma ideia para alguém que responde com perguntas, prós e contras e um primeiro rascunho em minutos é o jeito mais rápido que conheço de descobrir se a ideia é boa.
Tirando ideias da gaveta
Para mim, a maior mudança não é a velocidade, e sim o que passa a ser possível. Todo projeto pessoal tinha um custo escondido: para cada hora na parte interessante, eram várias em tudo o que está em volta dela, como configuração, testes, publicação, documentação, traduções e aquele bug que só acontece no Windows. Era essa parte que me fazia engavetar ideias antes mesmo de começar, porque eu sabia que nunca teria tempo de fazê-las direito.
Com o Claude, essa parte deixa de ser a mais cara, e a pergunta muda de “eu tenho tempo para isso?” para “isso vale a pena?”.
O Lavedonio Download é a primeira resposta: um lugar para guardar os arquivos dos meus outros projetos e servi-los em endereços que não mudam, com um site, uma API REST, armazenamento privado no Cloudflare R2, permissões, cotas e documentação interativa. É o tipo de projeto que eu teria deixado para “algum dia”, e ele foi de um repositório vazio à primeira versão em menos de um dia.
E ainda tem muita coisa na gaveta: ideias que pareciam grandes demais para uma pessoa no tempo livre, projetos que exigem conhecimentos que eu ainda não tenho e, sim, o jogo prometido na publicação do Pong. Gaveta, aliás, que o próprio Pong conhece bem: ele passou meses lá antes de eu retomá-lo em 2020. Pela primeira vez em muito tempo, a minha lista de ideias parece mais um plano do que um cemitério.
O que não mudou
Nada disso substitui saber o que se quer construir. O que manter, o que quebrar, o que deixar para depois e quando algo está bom o suficiente continuam sendo decisões minhas, e eu reviso tudo o que entra: o Claude erra, e depois de passar parte desses anos estudando como sistemas de linguagem falham, não vou me esquecer disso tão cedo. A diferença é que, agora, o gargalo é a revisão, e não a digitação.
Na primeira publicação, escrevi que este site é “um laboratório contínuo em que eu posso testar e mostrar o que aprendo no processo”. Seis anos depois, ele voltou a ser um laboratório, e o experimento agora é descobrir até onde essas ideias podem ir. Espero que a próxima publicação não demore mais seis anos.
P.S.: como não poderia deixar de ser, o Claude também ajudou a escrever esta publicação, nos dois idiomas.
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